A Mãe dos Exilados

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A maioria dos cristãos de hoje nunca viveu fora de seu país de origem, enfrentou dificuldades com outro idioma ou experimentou o desgaste silencioso de viver como estrangeiro em meio a outra sociedade. Contudo, as Escrituras descrevem o povo de Deus como forasteiros, estrangeiros e peregrinos. Compreender essa realidade exige, antes de tudo, deixar a comodidade de viver em nossa terra natal.

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Em 1876, quando os Estados Unidos se aproximavam de seu centenário, o povo francês preparava um presente inédito para os estadunidenses. O pensador político francês Édouard René de Laboulaye e o escultor Frédéric Auguste Bartholdi idealizaram uma estátua colossal chamada de A Liberdade Iluminando o Mundo. Uma vez concluída, a obra seria a estrutura mais alta de Manhattan, dominando a paisagem do porto de Nova York como um símbolo dos ideais políticos que eles viam refletidos nos Estados Unidos.

A construção da estátua foi financiada por doações particulares na França, enquanto os estadunidenses ficaram responsáveis por arrecadar recursos para o pedestal. Contudo, as arrecadações em ambos os lados do Atlântico ficaram abaixo do esperado e o projeto foi paralisado no início da década de 1880.

Entre as iniciativas estadunidenses para levantar recursos, realizou-se em 1883 uma mostra de arte com o cansativo nome de "Exposição do Fundo de Empréstimo de Obras de Arte em Benefício do Fundo para o Pedestal de Bartholdi". Na primeira página do catálogo da mostra constava um soneto escrito por Emma Lazarus, obra que mudaria para sempre o significado simbólico da estátua. Os versos mais famosos do poema "O Novo Colosso", atualmente gravado em uma placa de bronze na base da estrutura, conclamam as multidões exaustas, empobrecidas e desamparadas do Velho Mundo a buscar refúgio no Novo Mundo.

Emma Lazarus também era descendente de imigrantes judeus. Em 1882, após saber das ondas de violência antijudaica no Império Russo, ela se envolveu profundamente em ajudar os refugiados judeus que chegavam em massa aos Estados Unidos. O sofrimento deles "aos poucos ganhou mais espaço em meu pensamento e em meu coração", relatou ela em correspondência a uma amiga. “Isso quase afastou qualquer outro assunto de meus pensamentos”.

Movida pela situação daqueles refugiados e incentivada por uma amiga, ela colocou seu talento como escritora a serviço da campanha de arrecadação de fundos. Em versos menos conhecidos desse poema, ela chamou a estátua de “Mãe dos Exilados”. Independentemente de ter tido consciência disso, o sentimento do poema evoca a recorrente imagem bíblica de um povo exilado em busca de uma pátria.

Muito antes de a Estátua da Liberdade ser projetada ou de os Estados Unidos existirem como país, os pioneiros do Novo Mundo recorriam com frequência às metáforas bíblicas do peregrino, do forasteiro e do exilado. Em escritos de meados do século XVII a respeito dos pioneiros de Massachusetts, o governador William Bradford retratou uma comunidade que “deixou aquela aprazível e boa cidade...mas sabiam que eram peregrinos, e não davam tanta importância a essas coisas, mas erguiam os olhos aos céus, sua pátria mais amada...”.

O relato reflete Hebreus 11:13-16, que descreve os heróis da fé, nossos antepassados espirituais, que “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra...[que] se lembrassem daquela de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar...Mas, agora, desejam uma melhor, isto é, a celestial”.

No início do século XIX, tornou-se comum a prática de se referir às primeiras ondas de imigrantes em termos bíblicos. 

Em 1821, John Quincy Adams descreveu-os como “exilados voluntários de uma pátria mais preciosa para eles do que a própria vida...exilados por causa da liberdade e da consciência”.

Em 1830, Daniel Webster descreveu os “Pais Peregrinos”, que haviam desembarcado em Plymouth Rock duzentos anos antes, como aqueles que “buscavam desfrutar de maior liberdade religiosa”. Atualmente, os estadunidenses costumam associar os peregrinos mais aos primórdios da colonização do que ao contexto bíblico.

Contudo, aqueles antigos peregrinos não foram os primeiros nem os últimos cristãos a enxergar a própria história refletida nos temas bíblicos da peregrinação e do exílio. Ao longo da história, os cristãos exilados sempre acharam amparo e identificação no livro de Hebreus. Até mesmo em circunstâncias menos extremas, os cristãos que se encontram em terras estrangeiras identificam-se com esses heróis e com o anseio que os inspirava.

Os peregrinos da atualidade

Quando a Bíblia menciona estrangeiros e forasteiros, nossa primeira reação costuma ser pensar nos imigrantes que vivem em nosso país. Em contraste, os cristãos que emigraram para outros países compreendem esse simbolismo por experiência própria.

Nicole Roig Espinoza imigrou do Chile para os Estados Unidos em 2017, pouco antes de se casar com seu marido, Garrett Fenchel. Os dois se conheceram no Chile em 2010 e se reencontraram enquanto trabalhavam juntos em um projeto do United Youth Corps na Guatemala, em 2015. Após residirem nos Estados Unidos por alguns anos, o pai de Nicole recebeu o diagnóstico de uma rara doença neurológica degenerativa, então o casal decidiu retornar ao Chile para ficar ao lado dele em seus últimos meses de vida.

Eles permaneceram no Chile por cinco anos antes de retornar aos Estados Unidos.

A experiência de viver como imigrantes na terra natal um do outro trouxe a Garrett e Nicole uma compreensão mútua sobre a vida como estrangeiros e peregrinos.

“A condição de imigrante se torna parte da sua própria identidade”, ponderou Garrett. “Você acredita que voltar para casa será motivo de alegria e de alívio. Entretanto, essa experiência acabou despertando em mim sentimentos muito mais conflitantes”.

Nicole expressou um sentimento semelhante.

"Ao regressar para o Chile, tive a impressão de ter perdido alguma coisa", disse ela.

Essa consciência de serem estrangeiros e peregrinos é exatamente o que Deus tem procurado cultivar em Seu povo ao longo de milhares de anos.

As primeiras palavras de Deus registradas no livro de Gênesis dirigidas a Abraão foram: "Sai-te da tua terra" (Gênesis 12:1). Ele revelou a Abraão que a sua descendência seria "peregrina em terra alheia" (Gênesis 15:13, ARA). E assim aconteceu. Primeiro viveram como nômades e, mais tarde, tornaram-se escravos dos antigos egípcios. Antes que Deus os libertasse milagrosamente, eles experimentaram a dura realidade de serem estrangeiros.

A caminho da Terra Prometida, Deus deu ao povo leis sobre o tratamento dos estrangeiros que não tinham paralelo nas civilizações antigas. "O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito" (Êxodo 22:21). Deus relembrou o passado deles para motivar essa atitude.

Quando você aceita sua condição de estrangeiro neste mundo, o significado de lar deixa de ser tão claro.

“Depois de morar por muito tempo fora do seu país natal, indo e voltando entre os dois países, qual é, afinal, o seu verdadeiro lar?”, questionou Garrett.

Segundo Nicole, o lar é muito mais do que um lugar físico.

"Você fica entre um lugar e outro", disse ela. "Não sinto que meu lar seja o Chile. Também não sinto que meu lar seja aqui. Meu lar é onde está minha família".

Sem retorno

Algumas organizações classificam as idas e vindas dessa família como “migração de retorno”, expressão que reflete a liberdade de deslocamento de alguns migrantes. Para outros, porém, a viagem é apenas de ida.

Natallia Teague migrou da Bielorrússia para os Estados Unidos após passar por Barbados. Ela cresceu na União Soviética, em uma sociedade ateísta onde aprendeu que as pessoas religiosas não tinham instrução. Aquele não era um ambiente propício à fé cristã, mas Natallia sentia-se atraída pelo cristianismo, apesar da ausência generalizada de religião.

“Eu não estava em busca de Deus, Ele me achou”, afirmou ela.

Ela aprendeu sobre as festas de Deus (registradas em Levítico 23) e celebrou a Festa dos Tabernáculos com um pequeno grupo na Estônia.

“O ambiente ali era diferente. Talvez você acabe se acostumando depois de conviver com isso toda semana, contudo a primeira experiência proporciona uma sensação extraordinariamente diferente”, disse ela. “As pessoas eram muito educadas e gentis umas com as outras. Elas distribuíam brinquedos a crianças carentes e visitavam os idosos em casas de repouso. O brilho nos olhos delas demonstrava um zelo sincero. Elas pareciam pessoas... que não eram deste mundo”.

A vida dela tomou rumos inesperados logo após a mudança para Barbados. Ela tinha a intenção de ir embora, mas o retorno à Bielorrússia era inviável pelo simples motivo de que não havia igreja ali. Ela se tornou voluntária da Igreja de Deus Unida, ajudando na edição de publicações em russo. Em 2010, a Igreja a convidou para trabalhar em sua sede, em Ohio. Pouco tempo depois de chegar, ela conheceu David, com quem se casou um ano e meio depois.

Enquanto contava sua história, Natallia nos levou a um passeio virtual pela cidade da Bielorrússia onde passou grande parte da juventude, mostrando os museus e o teatro próximos da casa onde morava.

“Ela é uma cidade linda”, relembrou ela. “Sinto saudades, mas aquele não é o meu lugar”.

De certa forma, ela se inclui entre aqueles que “não ficaram pensando em voltar para a terra de onde tinham saído... teriam a oportunidade de voltar” (Hebreus 11:15, BLH). Em vez disso, ela escolheu sua família espiritual em detrimento daquilo que outrora lhe era familiar. O texto de Hebreus prossegue com a descrição de Deus como um Pai que “não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hebreus 11:16, NVI).

A misericórdia de Deus pelos estrangeiros

Ainda que nunca tenhamos vivido como estrangeiros, quase todos nós já nos sentimos deslocados em algum momento, seja ao mudar para uma nova cidade, começar a estudar em uma nova escola ou simplesmente visitar um lugar desconhecido. Esses momentos nos permitem compreender um pouco do incômodo de estar em um ambiente estranho, uma sensação que Deus deseja que tenhamos em mente tanto ao refletirmos sobre nossa identidade como cristãos quanto ao orientarmos nossa maneira de tratar o próximo.

Werner Solorzano nasceu e cresceu na Cidade da Guatemala, imigrando para os Estados Unidos em 2024 para trabalhar na equipe de mídia da Igreja de Deus Unida. Ele conhece bem esse desconforto.

“Viver como estrangeiro faz você se sentir desconfortável. Existe um sentimento constante de não pertencer, de não fazer parte da sociedade na qual você vive”, disse ele. Voltando-se para a esposa, Stephanie, perguntou: “Você se sentia desconfortável na Guatemala?”.

Stephanie Rorem cresceu em Pacifica, na Califórnia. O pai de Stephanie falava espanhol fluentemente. Assim, sua família viajava com frequência a vários países da América Central e do Sul para servir às congregações locais. Em uma dessas viagens, ela conheceu Werner. Eles se casaram em 2018 e viveram por seis anos na Cidade da Guatemala antes de se mudarem para os Estados Unidos.

“Desconfortável? Um pouco. Obviamente, eu chamava a atenção”, disse ela, rindo. Loira e de pele clara, ela não passava despercebida na Cidade da Guatemala.

“Esse [desconforto] era mais uma questão pessoal do que relacionada à forma como eu era tratada”, disse ela. Independentemente da forma como os outros os tratavam, ambos sentiam uma sutil inquietação nesses lugares pelo simples fato de saberem que eram diferentes.

“Há uma passagem bíblica que diz que não devemos oprimir o estrangeiro, pois sabemos o que ele sente”, disse Werner, referindo-se a Êxodo 23:9. Assim como gerações de israelitas que não conheceram a escravidão ou o exílio, os cristãos de hoje que nunca viveram como estrangeiros precisam cultivar esse mesmo sentimento no coração.

Precisamos nos lembrar das situações em que nós mesmos sentimos esse desconforto. Caso contrário, desperdiçamos valiosas oportunidades de nos relacionar com os outros.

“Acho que quase não se ouve falar sobre como é a sensação de ser um estrangeiro”, disse Werner, referindo-se às mensagens cristãs da atualidade. “Algumas pessoas simplesmente não conseguem compreender essa experiência”.

Compreender a própria experiência como estrangeiro desperta a percepção sobre as necessidades dos que vivem à margem da sociedade e dependem da boa vontade da maioria, justamente aqueles por quem o próprio Deus zela.

“Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e veste” (Deuteronômio 10:17-18).

O Antigo Testamento muitas vezes menciona o estrangeiro junto com outras pessoas vulneráveis e marginalizadas, destacando que Deus demonstra um cuidado especial por elas.

Jesus Cristo também recorreu a exemplos de pessoas vulneráveis para ilustrar a compaixão que esperava de Seus discípulos.

“Porque tive fome, e destes-Me de comer; tive sede, e destes-Me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-Me” (Mateus 25:35). Os cristãos que compreendem sua identidade como estrangeiros e peregrinos transformam esse desconforto em cuidado pelo próximo.

Garrett e Nicole passaram por essa experiência quando voltaram para os Estados Unidos. Enquanto aguardavam a saída das filhas da escola, os pais de uma colega de uma delas se aproximaram do casal.

“Eles se aproximaram inesperadamente, e a mãe disse: ‘Eu sei quanto esse retorno é um momento complicado para vocês. E apenas queria que soubessem que não me esqueci de vocês”, contou Nicole. “Um gesto assim faz uma diferença enorme. Isso foi o maior conforto que poderíamos receber naquele momento”.

Quando recorremos à nossa própria experiência como estrangeiros, a sensação de não pertencimento pode nos aproximar dos outros.

“Talvez seja essa a conexão”, disse Werner, “quando as pessoas conseguem ver além da sua condição de estrangeiro e simplesmente enxergar alguém que também vive ali”.

Vivendo como peregrinos e estrangeiros

Assumir nossa identidade cristã como estrangeiros e peregrinos não apenas cria vínculos com as pessoas ao nosso redor, mas também nos aproxima do próprio Deus.

O apóstolo João descreve Jesus como Aquele que “se tornou um ser humano e morou entre nós” (João 1:14, BLH). Ele viveu como estrangeiro e peregrino em um mundo hostil. Ele permanecia comprometido com o propósito daquele que O enviou e não se envolvia com os movimentos ou governos de sua época. Ele viveu entre nacionalistas judeus fervorosos, conquistadores romanos e zelotes religiosos, não como um deles, mas como alguém de fora, um verdadeiro estrangeiro.

Jesus não está pedindo nada de Seus discípulos que Ele mesmo não tenha vivido. Isso é um grande conforto para Nicole.

“Sei que Deus está vendo o que estou passando”, disse Nicole. “Sinto que há alguém lá no alto que me compreende”.

Viver como cristãos significa reconhecer que somos estrangeiros em relação aos governos e sistemas que nos cercam e viver como representantes de um Reino diferente, seguindo o exemplo de Jesus.

Assim como os heróis da fé mencionados em Hebreus 11, os cristãos de hoje buscam uma pátria. Paulo lembrou à igreja de Filipos que “a nossa cidadania, porém, está nos céus” (Filipenses 3:20, NVI). Isso não significa que não temos cidadania ou responsabilidades terrenas, contudo elas estão sujeitas a essa realidade maior.

Paulo repete esse tema sobre onde está nossa cidadania ao definir os limites de nossa condição de estrangeiros: “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de Deus” (Efésios 2:19). Ele combina os conceitos de cidadania e família para transmitir uma visão plena de pertencimento.

Essa afirmação não é linguagem figurada. Existe um reino de fato ao qual os cristãos já pertencem, um governo que será estabelecido na Terra e jamais terá fim.

Ele apenas ainda não chegou.

Ele se encontra na “cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10), a “cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hebreus 12:22), a mesma cidade que João descreve como “a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu” (Apocalipse 21:2, ARA) para uma nova Terra. Ela é mais do que um monumento que simboliza esperança, um farol de liberdade ou uma “Mãe dos Exilados” simbólica, pois ela é “a mãe de todos nós” (Gálatas 4:26).

Para o cristão, ela é seu lar.

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