Paulo Quis Dizer Que Podemos Tomar a Comunhão Quando Quisermos?

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O que 1 Coríntios 11:26 e Atos 2:46 ensinam — que os cristãos podem tomar a comunhão quando quiserem, ou essas passagens se referem, antes, à observância anual da Páscoa e às refeições comuns partilhadas entre os crentes?

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Pergunta: A passagem de 1 Coríntios 11:26 ensina que podemos participar do pão e do vinho da comunhão quantas vezes quisermos?

Resposta: Embora muitos pensem assim, não é isso que esse texto afirma. Em 1 Coríntios 11, Paulo se refere a uma cerimônia específica instituída por Jesus “na noite em que foi traído” (versículo 23).

Os relatos dos evangelhos deixam claro que se tratava da Páscoa (Lucas 22:8, 11, 15) — ocasião em que Jesus atribuiu novo significado a essa cerimônia, definindo que o ato de participar do pão e do vinho simbolizaria a aceitação de Sua morte sacrificial. Em 1 Coríntios 10:16-17, Paulo descreve a celebração conjunta da igreja em torno desses símbolos como a “comunhão” ou participação no corpo e no sangue de Cristo em sentido figurado. Mais uma vez, o contexto era a Páscoa. Aliás, Paulo já havia afirmado isso em 1 Coríntios 5:7, dizendo que “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós”.

A Páscoa era uma cerimônia anual, celebrada no décimo quarto dia do primeiro mês do calendário hebraico (Levítico 23:5). Desde a juventude, Jesus celebrava a Páscoa com Sua família no tempo determinado a cada ano (Lucas 2:41). E Ele manteve essa observância anual com Seus discípulos, até a última celebração, na noite em que foi traído, antes de ser morto. Após a morte e a ressurreição de Cristo, a Igreja primitiva deu continuidade à celebração das festas anuais descritas em Levítico 23. Por exemplo, Lucas registra que os seguidores de Jesus se reuniram para celebrar a Festa de Pentecostes (Atos 2:1).

A Páscoa continuou sendo celebrada, mas agora como um memorial da morte de Cristo, nosso verdadeiro Cordeiro pascal. Até mesmo na sociedade secular, é comum que datas memoriais sejam observadas anualmente. Além disso, a Páscoa já era uma cerimônia anual fixa, celebrada na data determinada pelo calendário hebraico.

Não há evidência de que os cristãos possam fixar livremente uma data diferente da ordenada na Bíblia para participar do pão e do vinho, que representam o sacrifício de Cristo — a celebração da Páscoa se inicia ao anoitecer do décimo quarto dia do primeiro mês do calendário hebraico.

A expressão “todas as vezes”, empregada por Paulo nessa passagem, não significa sempre que você decidir por conta própria, como muitos imaginam. Ele apenas quis dizer sempre que ou cada vez que os seguidores de Cristo participassem do pão e do vinho na celebração da Páscoa, que ocorria uma vez por ano, na noite em que Ele foi traído. A Bíblia Viva traduz essa expressão assim: “cada vez que vocês comerem esse pão e beberem esse cálice” (grifo nosso).

A intenção não era incentivar uma "comunhão" diária, semanal ou trimestral, nem mesmo uma celebração anual separada da Páscoa bíblica, como na suposta “Sexta-feira Santa”. O texto trata apenas da observância da Páscoa a cada ano.

Pergunta: A expressão "partindo o pão em casa", mencionado em Atos 2:46, indica uma cerimônia de comunhão diária?

Resposta: Não. Essa passagem significa apenas que os cristãos tomavam refeições juntos nas casas uns dos outros. Até hoje, a expressão “partir o pão” significa apenas tomar uma refeição.

O pão costuma ser sinônimo de alimento nas Escrituras porque sempre foi a principal fonte de sustento e um componente básico de todas as refeições ao longo da história. Em relação ao pão, o costume até pouco tempo atrás era parti-lo em pedaços menores para que todos comessem dele. Vemos isso na Bíblia, em passagens como Lucas 9:16-17, quando Jesus alimentou cinco mil pessoas partindo os pães em pedaços — e ainda sobraram "doze cestos de pedaços".

Além disso, as refeições judaicas na época de Cristo começavam habitualmente com uma bênção sobre o pão, seguida pelo ato de parti-lo para distribuição. Conforme declarado no comentário Barnes’ Notes on the New Testament (Notas de Barnes sobre o Novo Testamento) acerca do “partir do pão” em Atos 2:42 e 2:46: “Na verdade, a interpretação implícita parece ser que isso se referia à participação em suas refeições diárias. O ato de partir o pão era geralmente realizado pelo mestre da casa ou chefe da família logo após a bênção” (nota sobre Atos 2:42).

Leia também Atos 27:33-38, que mostra Paulo dando graças e partindo o pão em uma refeição comum, compartilhada inclusive por pessoas que não eram cristãs.

Em Atos 2:46, o significado também se refere a uma refeição comum. O texto completo mostra que os discípulos frequentavam o templo diariamente e depois retornavam às suas casas para comerem juntos. A Bíblia na Versão Fácil de Ler parafraseia assim: “Eles se reuniam no templo todos os dias, e comiam juntos de casa em casa, repartindo a comida com alegria e com sinceridade no coração”. 

Assim como em todas as refeições judaicas, a ceia da Páscoa também incluía a bênção e o partimento do pão, especificamente pão asmo, requerido como componente essencial dessa cerimônia. Durante a ceia de Páscoa que precedeu Sua morte, Jesus adotou o costume de abençoar e partir o pão para estabelecer uma nova forma cristã de celebrar a Páscoa. Nessa cerimônia, observada anualmente na mesma data, o partimento do pão asmo simboliza o corpo imaculado de Cristo sendo partido como um aspecto fundamental de Seu sacrifício pelos nossos pecados.

Contudo, a expressão “partir o pão” continuava a ser uma maneira comum de se referir ao ato de comer uma refeição, conforme demonstrado em Atos 2:46. Curiosamente, nossas palavras modernas "companhia" e "companheiro" derivam do francês antigo compaignon, que significa "aquele que parte o pão com outro", originado do termo em latim companio, unindo cum (junto) e panis (pão), ou seja, alguém com quem você compartilha o pão ou as refeições.

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